CARTA PARA DEUS
Agosto 3, 2007 de Mário Leal
Oi Pai, como você está? Lembrei de quantas vezes eu pedi tantas coisas e nunca me importei se você estava bem, se precisava de algo ou se estaria passando por um momento de solidão. Bom, acho que com tanto trabalho que eu e meus irmãos lhes fornecemos, talvez não tenha muito tempo para se sentir solitário; mas, mesmo assim, achei que devia lhe perguntar isso. Até porque eu nunca lhe perguntei.
Você sabe que fiquei arrasado com aquela audiência. É verdade sim, doeu pra caramba participar daquilo. Como pode ser isso, meu pai? Será que um dia vou esquecer aquelas imagens de três crianças algemadas como adultos e escoltadas por um policial armado? Penso que será difícil esquecer isso. E aquela menina, pai, que tanto lembrava a minha filha? Como eu poderia não associar essas coisas? Ontem vomitei aqui a minha indignação mesmo sabendo que ela, em si mesma, nada vai mudar e noutras salas de audiência crianças estarão contando os mesmos fatos. Tenho certeza de que neste exato minuto outras tantas crianças percorrem as ruas vendendo drogas, esmolando ou prostituindo-se. O que posso fazer, meu pai? Sou tão insignificante neste seu planeta. Sou tão frágil e desimportante. Tenho vergonha de não fazer nada para mudar isso. Tenho vergonha do que sou. Vivo correndo atrás, chegando atrasado e ficando no meu canto. Escrevo sim, isto é verdade. Mas de que adianta escrever se aqueles que precisavam ler não lêem? A maior parte deles nem tem computador ou não sabem ler. Os que sabem, meu pai, escondem-se em seus gabinetes de luxo e ignoram o assunto. Outros protestam como eu, com essa mesma convicção de inutilidade porquanto falamos ao vento, normalmente para os que cuidam dos seus filhos com amor e dedicação. Eles não precisam ler isso. Já sabem e zelam pelos seus amados filhos.
Fiquei tão triste, pai. Trago aqui no peito as marcas da minha tristeza oriunda desta realidade. Inúmeras cicatrizes, algumas delas ainda nem bem secaram: João Hélio assassinado cruelmente, uma menina morta por uma bala perdida ao lado do telefone público, gente escravizada em fazendas, políticos cegos à realidade e preocupados em encher os bolsos, fome na África e na Índia e tantas outras lembranças tristes… Tantas! Dezenas delas que fazem parte do que sou e me envergonham por ficar sentado nesta poltrona confortável, escrevendo idéias, criticando e, na verdade, absolutamente nada realizando em benefício de quaisquer dessas inúmeras vítimas da opressão humana. Sou cúmplice por omissão, meu pai. Sou também responsável por tudo isso que ocorre neste planeta, ainda que a minha culpa seja subjetiva, indireta ou subsidiária.
Daqui a dois domingos é o seu dia. Sim, antes de tudo você é um pai. Aproveito para homenageá-lo aqui nesta carta aberta porque naquele domingo vou prestar homenagem ao meu pai carnal. Dia de festa e dor. Dezenas de filhos não poderão abraçar os pais perdidos no vôo da TAM. Outras dezenas de pais não poderão receber um beijo dos seus filhos mortos no mesmo vôo. Limitar-se-ão a orações e flores depositadas nas sepulturas. Haverá festa para alguns felizardos que ainda estão por aqui e não foram vítimas da omissão estatal. Dia de festa comemorado sem esconder a dor que sangra em corações sofridos.
Ah, pai, sei que existem aqueles que ainda duvidam da sua existência. Há mesmo os que zombariam desta carta. Ironia desta vida: queiram ou não, dia desses descobrirão o seu poder, misericórdia e inesgotável bondade. Justamente no dia em que fecharem os olhos para a vida que conhecemos e desvendarem a cortina da morte. Exatamente como o filho pródigo da parábola cristã, o senhor os receberá em festa. Não o conheciam e acabarão por conhecer. Não sabiam o quanto o senhor os amava e verão da sua perfeição absoluta jorrar o seu imenso amor. Neste dia, meu querido pai, as mitologias do mundo passarão e eles compreenderão quão bom você é. Sei que mandará servir-lhes o melhor prato e chamará a todos para que festejem o retorno do filho que não o conheceu porque este é ainda mais amado. Retornou à sua presença e isso não é pouca coisa.
Então, meu pai, eu que já sou capaz de presumir o seu amor, só posso mesmo agradecer a sua misericórdia para comigo e pedir perdão pelos meus erros passados e atuais, confiando que o seu divino querer evite que eu cometa novos erros por ação ou omissão. Só posso mesmo agradecer por você ser tão bom para comigo e aqueles a quem amo e por todas as dificuldades que eu venha a atravessar no futuro. Obrigado pai! Ter você na minha vida me faz muito bem. Produz uma confiança incrível no futuro, torna-me melhor a cada dia e ajuda a superar até mesmo tantas lembranças tristes colhidas neste mundo. Não sei o que seria de mim se não acreditasse em você. Acho que eu seria uma pessoa muito triste e odiaria estar aqui diante de crianças algemadas pela miséria, menores assassinados e aviões que explodem.
Olha pai, sei que muitos não acreditam, mas eu creio. Então hoje vou pedir para você abençoar este mundo, ajudar esse povo que o administra e aqueles bilhões de seres que nele habitam, cuidar dos enfermos do corpo e também dos enfermos da alma. Quantas dores físicas e emocionais! Quantas famílias arrasadas pelo desvio comportamental de um dos seus! Quantas mães choram o descaso dos seus familiares! Quantos idosos largados em asilos! Quantas crianças mendigam o pão diário e, às vezes, vendem o corpo ou drogas para obtê-lo. Outras, querido pai, estão nos hospitais sofrendo com o câncer; há aquelas que já nasceram com AIDS; há tantas e tantas dores neste planeta-escola!
Pai, eu sei que na medida em que escrevo o senhor lê esta carta. Não é muito, pai, eu poderia escrever muito mais a respeito de tudo isso a que me referi. No fundo é só um disfarce: carta que homenageia e, na realidade, mais não é do que um pedido de socorro. Ajuda este planeta, Pai! Estou pedindo socorro, traçando estas linhas para que o senhor as leia. Ajuda este planeta!
Um grande beijo, Pai!
Do seu imperfeito filho,
Mário.


Mário, além de bonita a sua fé, ela inaltece nossos corações com mais esperanças de que essa semente germine e cresça em outros corações. Porque a fé é um elo que unem os povos na crença de um Deus maior, um Deus que desfaça as injustiças do mundo.
Bom fim de semana! Beijus, Luma
Sabe Deus, as vezes não encontramos as palavras certas para falar contigo. A minha pequenez é tão imensurável que fico até com medo de dizer o que não devo ou me expressar mal e o Senhor não me entender, mas por outro lado eu sei que me sondas e conheces meu coração, e ainda que eu não saiba usar as palavras Tú conheces minhas necessidades, sabes de minhas atribulações, sofrimentos e lágrimas.
As vezes me sinta fraca e quando isso acontece peço-lhe perdão, mas quero que saibas que essa fraqueza não é falta de fé é a apenas uma dor forte que invade meu peito e eu acabo não aguentando e fraquejando algumas vezes. Eu sei que seu tempo não é mesmo que o nosso, sei que seus desígenos tem um pra quê de existir e acontecer, e ainda que não saibamos compreender, saibas que confio em Ti. Nesses últimos de minha vida o Senhor bem sabeis o que tenho sofrido, sabe que meu caminhar tem sido árduo, mas ainda assim tenho conseguido ser forte, pois estou em Ti e Tú estás em mim, essa é a certeza que tenho, pois os dias têm sido dificéis mas eu sei que tú me ergues todos os dias e faz ressurgir em mim a esperança de um amanhã sempre melhor. Ainda que eu não diga nenhuma palavra sei que o Senhor conhece minhas necessidades, o socorro sei que virá no tempo oportuno, não fique triste comigo pelas vezes que insisto em pedir-lhe graças, curas e milagres, apenas quero com isso lembrar-lhe que estou certa de estás ao meu lado me ouvindo a todo tempo. Continuarei confiante em ti nesta grande necessidade em que me encontro e sei que no seu tempo o socorro a que tanto busco será certo.
Pai, obrigada por estar sempre ao meu lado, por me ouvir, me consolar, orientar e fortalecer nesta hora tão difícil. Temos ainda muito o que conversar, mas aos pouco vamos nos falando, pois o Senhor têm muitas outras pessoas que também necessitam de Ti.
Obrigada por me ouvir todos os dias e por caminhar ao meu lado, mas obrigada principalemnte por me levra nos braços quando minhas pernas enfraquecem e meu caminhar se torna difícil.
Até breve!