FOTOS E PAREDES
Setembro 18, 2007 de Mário Leal

Existem dias em que acordo cansado de tanto dormir. O alegre canto dos pássaros penetra através da janela do quarto para anunciar outra manhã que chegou. As flores no jardim abrigam pequenos insetos que se misturam às abelhas. O sol aquece as frutas exibidas pelo pomar. O céu azul convida as gaivotas a pularem entre as nuvens de algodão.
Largado na varanda, observo os guarda-sóis enfileirados como cogumelos enquanto contemplo as ondas do mar a se desfazerem na areia. Escuto crianças cantando seus hinos infantis durante a frenética corrida da qual nunca se cansam.
Deparo-me com eles: todos de mãos dadas e brincando de roda. Festejam a vida que tiveram e aquelas que vieram depois. Compartilham espaço com filhos que deixei de ter ou embalam uma criança em doce festa.
Pego de surpresa, admiro os meus netos que cismaram de construir castelo e desafiam os meus bisnetos a fazerem outro mais bonito do que aquele. Noto meu pai abraçado ao seu avô e minha mãe amamentando ao meu tataraneto recém-nascido. Imagens que se eternizam dentro do meu ser.
Desço para colhemos conchas, afoito por nelas escutar o som do vento que dubla a maré. Deixamo-nos cair sobre as ondas. Mergulhamos para acariciar aos peixes e extrairmos pérolas das ostras. Pouco depois, estamos rasgando o céu com pipas multicoloridas. À noitinha, deitamos na areia para desvendarmos os mistérios da formosa lua. Enlevados pela sinfonia das estrelas, permanecemos atados uns aos outros neste círculo sem fim. E trocamos afagos, sorrisos e beijos de gratidão. Beijar revela a alma.
Outras vezes acordo no beliche que reside em meu quarto desprovido de varanda. O silêncio substitui o canto dos pássaros. Faz pouco tempo que o despertador anunciara mais um dia sem pomar, areia ou maré. Espanto a escuridão com um interruptor. Então observo as paredes que me limitam e contemplo as fotos nelas dependuradas. Sei que retratos são incapazes de dizerem a alguém quem realmente sou e, mesmo assim, lamento aquilo que que não fotografei. Sinto a ausência da foto dos meus bisnetos a brincarem na areia da praia enquanto minha mãe amamentava ao meu tataraneto. Queria ter me lembrado de fotografar a todos eles, mãos dadas, rodopiando ao som daquela cantiga infantil.
A parede reclama um retrato impossível. Ouço a sua voz que tem som de concha do mar. Procuro a luz que se oculta dentro dela e assemelha-se ao brilho de alguma pérola adormecida na ostra que ainda não colhi. Percebo esse vazio monótono e não sei como responder. Nas manhãs em que isso acontece, apenas choro.


Belo, muito belo!
OBRIGADO, SIMONE.
Mário:
Gostei da imagem de acordar cansado de tanto dormir. O texto brinca com os contrastes muito bem, o que o torna belo.
GRATO, LINO. A IDÉIA ERA ESSA MESMO.
Amor,
Tão belo que sinto e vejo o que descreveu com realidade…e constato que essa realidade eu também sinto, sempre…
Com amor, Cris
SEMPRE MUITO PERCEPTIVA, MEU AMOR.
Muito lindo, Mário!!!! Adorei!!!
VALEU, LETÍCIA!
Lindo Mario!
Como tb esta linda tua nova casa,
Meire
FICO FELIZ QUE TENHA GOSTADO, MEIRE.
A Cris disse tudo e como ela eu também ‘vi’ tudo que você descreveu. Perfeito.
Abraços!
OBRIGADO, ALEXANDRE.
..algumas pessoas me dizem que sou uma boba, por fotografar tudo, e filmar “quase” tudo.. dizem que sou louca por tentar querer guardar não só os fatos, mas tbm as emoçoes vividas, que isto é impossivel!…mas eu tento, e sempre que possivel fico horas revendo e relembrando tudo que passou…
…Me indentifiquei muito com teu texto, mas no meu caso eu procuro guardar tudo..rs, acho que vou ser uma “veínha” cheia de cacarecos..hehe
bjos..e otimos dias..
NO FINAL, O QUE SOBRA SÃO MESMO OS RETRATOS DO PASSADO, TATI. OBRIGADO.
Mario
Estou passando para matar as saudades.
Adorei o texto! Imagens mescladas, presente, passado e futuro num só momento… Belíssimo!
Um beijinho carinhoso
Betty
SEMPRE BOM RECEBER A SUA VISITA, BETTY.
Bonito texto mesmo.
OBRIGADO, FÁBIO.