O BANCO DO JARDIM
Outubro 7, 2007 de Mário Leal
(Imagem surrupiada do Fragmentos de Mim)
Sentado no seu banco preferido, situado ao canto do jardim, ele observava as rosas que, semi-abertas, saudavam o dia. O aroma adocicado das flores pairava na atmosfera, penetrava pelas narinas até se esconder dentro dele. Registrou mentalmente os conhecidos perfumes da infância passada nos campos floridos da sua terra natal. Buscou na lembrança as tantas figuras que fizeram parte da sua história, associando-as como pétalas reveladas nos diversos botões pertencentes à mesma roseira.
Na alegre manhã de sábado esticou as pernas o mais que pôde. Ergueu os braços e sentiu nas costas a madeira do encosto do banco. Espreguiçou-se como há muito não fazia. Retornou em seguida à posição mais cômoda. Permitiu-se sentir um infinito bem estar. Leveza no corpo e na alma.
Sem desligar-se por inteiro da deliciosa visão das flores, olhou um pouco mais além. Seus familiares estavam em festa ao redor da churrasqueira e as crianças pulavam nas águas refrescantes da piscina. Sentia tanta felicidade acumulada que não conteve um sorriso cristalino.
Levantou-se. Caminhou pela grama tomando cuidado para não machucar as flores. Enquanto caminhava no seu passo lento aspirava um pouco mais o agradável perfume. Cutucou uma abelha que ia e vinha sobre um botão e a acariciaria não fosse o medo da ferroada. Logo atingiu a piscina. Sem se preocupar com a roupa, mergulhou na água e passou a brincar com as crianças que lançavam uma enorme bola para o alto. A bola descia e ele a amparava e depois devolvia para um dos garotos lançá-la novamente no espaço vazio. Abraçou os seus pequenos no centro da piscina e riu-se da repentina volta à infância.
Saiu da piscina com as vestes pingando. Aproximou-se sorrateiro do grupo próximo à churrasqueira, mantendo absoluto silêncio, vez que não queria assustá-los. Sentiu o clima de festa e abraçou cada um dos seus familiares, aquelas pétalas formidáveis que a vida lhe dera. Estava feliz por revê-los assim tão contentes.
Deixou-os ali a comemorarem a vida. Entrou na casa pela porta da cozinha. Observou os armários de madeira nos quais colocara todo o amor que sentia pelo seu ofício de marceneiro. Passeou pelos amplos corredores. Admirou a bela estante da sala. Subiu as escadas, sustentando-se no corrimão de madeira entalhada. Ingressou nos muitos quartos sem deixar de notar os guarda-roupas embutidos que tanto suor lhe custaram. Adorava a madeira, desde moço o pai lhe ensinara a trabalhar com ela, superou ao velho pai e transformou-se num artista de obras que jamais figurariam em galerias de arte. Enfeitavam a casa dos seus clientes e a linda coleção possuía exposição restrita.
Bateu respeitosamente na porta do quarto da esposa, observando ao seu costume. Sabia que ela não poderia abrir, porém respeitava ao velho hábito. Entrou em silêncio. Viu a sua amada estirada no leito, enfraquecida pela doença que consumia sua saúde há tantos anos. Inclinou-se devagar e osculou a sua fronte.
Tocada pelo afetuoso beijo, ela abriu os olhos. O observou com calma, procurando alguma imperfeição na sua vestimenta. Sempre fazia isso desde que aprendeu a amá-lo. Cuidava dele com o carinho de uma grande estilista que está prestes a iniciar um desfile e ajeita os últimos detalhes antes do seu modelo entrar em cena. Sorriu ao notar que o seu velho estava trajado de modo impecável. Adivinhou alguma coisa escondida atrás dele. Claro que sabia o que era, mas fez de conta que não percebera com o intuito de não estragar a surpresa.
Ele sorriu de volta, revelando o botão de rosa vermelha que trazia consigo. Depositou a pequena flor sobre o criado-mudo e só então se sentou ao lado da esposa.
- Todos estão bem, minha querida. Brinquei com as crianças, abracei nossos filhos, beijei nossas noras e genros. Tá tudo bem, amor da minha vida. Estão numa alegria só. E você, como amanheceu hoje?
A velha empalidecida murmurou o que seria ininteligível se ele não a conhecesse tão bem. Falava de saudade, reclamava da idade, listava as preocupações domésticas e os afazeres aos quais não mais podia se dedicar.
Ele depositou um amoroso olhar sobre a mulher a quem amava. Afagou os cabelos brancos como a neve e deixou no ar um sorriso cheio de compreensão.
- Passei pelo nosso jardim e colhi esta rosa para você. Que acha dela?
A velha senhora respondeu com um olhar agradecido.
- Amor, já podemos ir namorar no nosso banco. Já é hora.
Ela exultou de alegria e esticou a mão na direção dele.
O esposo a ajudou a levantar-se da cama. Envolveu aquele corpo franzino num doce abraço e caminhou lentamente, apoiando-a em cada passo para descerem as escadas. Atravessaram a porta que conduzia à piscina. Passaram silenciosamente para que os filhos não a recriminassem. Caminharam entre as flores e tomaram lugar no banco de madeira.
Observaram o clima de festa e a roseira completa com os botões de rosa que juntos plantaram.
Ele continuou a abraçá-la e beijou seus lábios com ternura sem igual. A amava tanto e há tantos anos.
- Mamãe! – chamou a menina que reclamava a atenção materna puxando a ponta da canga colorida.
A jovem genitora agachou-se para que ficasse na altura do olhar da pequena.
- Que foi, querida? Que você quer agora? – indagou carinhosa.
- Lá na piscina senti uma saudade tão grande do Vovô Aluízio…
- Vovô está no céu. Já te falei. Vá brincar com os seus primos.
- E a vovó, mamãe?
- Está dormindo lá em cima, meu amor. Você sabe que ela é muito doente. Depois vamos visitá-la. Aproveite a festa, filhinha.
- Mas a vovó e o vovô não estão sentados no banco do jardim? – apontou o dedo em riste na direção do casal.
A mulher olhou admirada para o banco vazio.
- Cíntia, pare com essas histórias. – retrucou com aquele tom de voz que a menina identificava como aviso - Você vive inventando que o vovô está sentado na cama da vovó. Já te falei para parar com isso. Vá brincar, vá!
A menina voltou o olhar além da roseira e com a mão direita lançou um beijo na direção do banco. Recebeu em resposta dois sorrisos alegres. Conformou-se e pulou na piscina, saltando sobre os primos que gritavam ao recebê-la.
Lá no quarto um botão de rosa descansava sobre o criado-mudo enquanto um corpo sem vida aguardava a sua descoberta.
Esquecido num canto do jardim florido, um banco de madeira despedia-se daqueles a quem testemunhara o amor.
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UPTADE: Tomei ciência a pouco do recado deixado na Veridiana Serpa pela Luci Lacey. Muitos amigos estão a par de que a brasileira Ana Virgínia encontra-se presa em Lisboa, Portugal, e que teria, inclusive, sido vítima de tortura pelas autoridades portuguesas. Lutando incansavelmente para que o governo brasileiro faça algo em benefício de Ana Virgínia, uma brasileira como qualquer um de nós, a amiga Luci pede que todos os blogueiros que se sensibilizarem com a situação da brasileira reclusa em Portugal, assinem uma petição digital endereçada à Presidência da República do Brasil, através da qual requer providências urgentes do governo brasileiro. Já a assinei, aliás duas vezes. Peço aos meus amigos e amigas que façam o mesmo. Nessas horas, independente de julgamentos pessoais, é nosso dever sermos solidários. Hoje é a Ana Virgínia quem está lá, amanhã poderá ser alguém bem mais próximo de nós. Por favor, se você gosta deste humilde blogue, presentei-me assinando a petição digital. Clique neste link: PETIÇÃO ON LINE. Preencha os poucos dados requeridos, não vai gastar nem um minuto durante todo o procedimento. Muito Obrigado! E aos amigos blogueiros, peço que divulguem do mesmo modo que faço. Como disse, é uma questão de solidariedade humana.



Ô Mário, meu amor…
Que lindo…de emocionar mesmo…
Ao lê-lo puder até mesmo visualizar as cenas, sentindo a emoção de cada palavra descrita…
Sentimentos, emoções e um amor compartilhado por toda uma vida…
Obrigada querido, pelo grande prazer que me proporciona, ao ler algo tão lindo, um amor que atravessa uma vida e segue junto para uma outra…
Te amo sabia?
Beijinho, Cris
SEI, PRINCESA. TAMBÉM TE AMO, MINHA FLOR. OBRIGADO PELO SEU CARINHO ETERNO. BEIJOS DE SAUDADE.
Adoro contos, quando eles são be contados a gente consegue se transportar e passa a ser nossa a história.
Tens muita sensibilidade!
http://nocentrodemim.blogs.sapo.pt(aqui tbm me encontra)
LÍVIA, VOU VISITÁ-LA. SÓ UM POUQUINHO DE PACIÊNCIA. OBRIGADO.
Oi Mario
Obrigada pela ajuda.
Tenha uma boa semana.
Abracos
LUCI, NEM PRECISAVA AGRADECER. É O MEU DEVER AJUDAR AQUELES QUE ESTÃO AO MEU ALCANCE SEREM AJUDADOS. EU QUEM TE AGRADEÇO POR TODA A LUTA QUE SEI QUE VOCÊ TEM REALIZADO DE MODO INCANSÁVEL.
A grande força que nos ergue é o amor, ele nos faz guerreiros.
Belíssimo conto.
lindos dias,
beijos
SIM, CLARINHA, SÓ MESMO COM AMOR A VIDA TEM SENTIDO. OBRIGADO.
Mario, já coloquei o link para a petição lá na fábrica também.
Abraços!
QUE ÓTIMO, ALEXANDRE. PARABÉNS, MEU AMIGO!
Que coisa mais linda! Que texto tocante!
O amor sublime, belo, além da vida terrena… ai ai…
Mário, passaram no meu blog e deixaram um recadinho para que eu também desse uma força nessa questão da prisão da Ana Virgínia…
Posso copiar o seu pedido lá no meu blog? Darei os devidos créditos, é claro…
Bom, como acho que o quanto antes, melhor, vou postar lá, caso você não queira, não me autorize, por favor, me avise que tiro rapinho, ok!?
Abraço!
MINEIRA, QUERIDA AMIGA, FIQUE À VONTADE. ESTA É A NOSSA CASA. VALEU POR DAR ESTA FORÇA PARA A ANA VIRGINIA.
Oi Mario!
Que lindo e emocionante conto! Perfeitamente factivel, o amor esta sempre na frente e no coracao puro das criancas. Fiquei emocionada. Obrigada por dividir.
beijos querido e boa semana,
EU QUEM TE AGRADEÇO, TINA. MUITO OBRIGADO!
Mario, vim para agradecer suas amáveis, e gentis palavras, a meu respeito, no blog da Meg. Mas ao acabar de ler seu conto, que gostei muito, iria fazer um comentário mais substancioso. Fui pego de surpresa pelo seu UP-Date, e me tirou a concentração. Vou posta o link, no Drops, imediatamente. Não importa o que tenha feito. Sua integridade física não pode ser desrespeitada, muito menos em terras estrangeiras.
Mas fica a gratidão pelo comentário, parabéns pela crônica, e a certeza de que aqui, neste blog, se tem APOIO FRATERNO.
EDUARDO, SOU MUITO SINCERO DOA A QUEM DOER…rs. TUDO O QUE ESCREVI, MEU AMIGO, É REALMENTE O QUE SINTO. O DROPS É UM BLOGUE DE ALTO NÍVEL, MAIS UMA VEZ TE PARABENIZO POR EDITÁ-LO.
Belo texto, Mário. E ele me remeteu à morte do meu avô e padrinho, que foi descoberto morto, na cama, pela manhã como se estivesse dormindo. Acho que este é o melhor jeito de a gente deixar esta vida, tranquilo e em paz.
LINO, DESCONFIO QUE ESTA É A MELHOR MANEIRA DE MORRER, SE É QUE DE FATO EXISTA UMA. OBRIGADO!
Já dizia Exupery “o essencial é invisível para os olhos; só se vê bem com o coração” Um post repleto de sensibilidade. Parabéns!
abraço, garoto
DENISE, MUITO GENTIL DA SUA PARTE. MUITO OBRIGADO!
Belíssimo texto.Grande inspiração.
MAGUI, FIQUEI CONTENTE QUE TENHA GOSTADO. OBRIGADO.
Mário,
Vim aqui pra agradecer a sua visita ao meu blog e fiquei encantada com a poesia contida no seu conto, de uma ternura imensa e de sensibilidade poética inigualável. Parabéns! Sentí uma emoção que há muito não experimentava, especialmente porque parece muito com a história de um casal de velhinhos que conhecí, os quais se amaram apaixonadamente até que a morte os separasse. Ainda hoje, a velha senhora dorme com a foto do seu amado no travesseiro ao lado do seu. Lindo, lindo, lindo!
Quanto à petição, não tenha dúvida de que a assinarei. Conhecí a história da Ana Virgínia através da Luci Lacey e até postei sobre o assunto, convocando blogueiros para se integrarem à causa. Vou lá agora mesmo.
Grande abraço!
SHEHERAZADE, O MEU É UM CONTO, UMA FICÇÃO. COM CERTEZA A REALIDADE É BEM MAIS INTERESSANTE. FIQUEI FELIZ DE TER ALCANÇADO TRANSMITIR O SENTIMENTO QUE EU PRETENDIA E VOCÊ PEGOU AÍ: TERNURA. OBRIGADO! E MUITO, MUITO OBRIGADO MESMO, POR AJUDAR A ANA VIRGÍNIA.
obrigada pela visita ao meu blog. boa semana
FÁBIA, PODE ESPERAR PORQUE VIREI FREGUÊS.
Para as crianças o amor é mais evidente.
Cadinho RoCo
CADINHO, ESSE MISTÉRIO DA INFÂNCIA ME FASCINA. OBRIGADO.
Vou assinar, Mário. E parabéns pelo conto… excelente!
FLÁVIO, ASSINE MESMO. SE PUDER, DIVULGUE TAMBÉM. VALEU!
Maravilhoso e emocioinante o teu conto, Mário! Amei!
Já assinei a petição e postei no meu blog sobre ela, pedindo ajuda de quem aparecer. Vou também mandar por e-mail para meus amigos.
Um abraço.
ROSA, OBRIGADO PELOS ELOGIOS. PORÉM, OBRIGADO MESMO POR COLABORAR COM A NOSSA AMIGA QUE TANTO NECESSITA DA NOSSA SOLIDARIEDADE. VALEU!
Muito lindo o texto, sabe que li duas vezes até…me encantei…
“Que seja eterno enquanto dure esse amor…” esse dura para sempre…
Beijos