O VELHO MALAQUIAS
Abril 1, 2008 de Mário Leal
Devido à idade avançada, ele pouco saía de casa. Ficava lá, meio que perdido no manuseio das suas ervas. Chá disso e daquilo era assunto para o velho descendente de escravos. Fazia daquelas misturadas que só ele entendia, engarrafava e mandava um de nós correr a entregar para o doente. Quase sempre era eu quem pulava pra bicicleta e partia a toda velocidade rasgando os vistosos campos da Fazenda Santa Clara.
Mãe não se importava muito com minhas ausências porque tinha noção da responsabilidade sobre os ombros do velho Malaquias. A Santa Clara ficava por demais longe da cidade e o povo dependia desses caseiros que o velho aviava mesmo sem ter aprendido a ler. Podia não curar todas as doenças, mas que aliviava a dor, isso aliviava. Etelvina que o diga. Negra como o velho, cansada qual ele, ainda andando graças ao remédio que o velho providenciava, tamanha a dor que carcomia a perna da coitada.
Confesso que nunca entendi direito esse velho maluco. Malaquias é a pessoa mais simples que conheci na minha infância. Dizem que na época da escravatura a Fazenda Santa Clara, naquele tempo chamada Estrela Azul, ganhara muito dinheiro com o produto da mão de obra dos escravos. Quantos escravos! Santa Clara tinha centenas deles trabalhando no plantio e colheita, ensacando produtos e carregando peso. Era comandada pelo Manoel Pereira, parente distante de pai e até hoje lembrado pela dureza do seu coração.
Segundo a boca do povo dessas bandas, o velho Malaquias é descendente dos primeiros escravos de Santa Clara. O velho vive dizendo que dali só sai pro fundo da terra. E foi ficando. Trabalhou para o pai o quanto agüentou, ganhando a miséria que pai pode pagar. Agora, cada dia que passa parece estar ainda mais velho com aquela barba e cabelos brancos enferrujados. Anda todo curvado, o peso desabando sobre a bengala que um doente fez especialmente para ele com um pedaço de madeira forte e avermelhada.
Mais de uma vez fiquei de conversa com o velho Malaquias. Ele preparando suas misturas e eu puxando assunto para ver o que ele contava. Coisa difícil querer que o velho se revolte com alguma coisa. Lembro bem o dia que eu, chateado por pai não poder me dar uma bicicleta nova, fiquei remoendo as mágoas no ouvido do velho.
- Ta bão, fiu. – concluiu Malaquias, sem dar a mínima importância para o meu problema. Fiquei indignado e decidi aporrinhar ele.
- Você fica aqui neste barraco velho e fedido a mofo. Nem tem direito o que comer e acha isso bom?
- Cada um tem o qui podi, fiu. Io posso di te este canto, intão ta bão ansim mermo.
- E seus parentes que morreram escravos aqui? Não se importa com o quanto sofreram nestas terras que hoje são do meu pai?
- Óia aqui, fiu, ocê é jovem. Um dia vai vê qui todo mar vem pro bem. Inté o qui não si intendi. E aí vai vê como tudo ta bão do jeito qui ta.
Olhei revoltado para o velho aparentemente sem sangue na veia. Onde já se viu achar que até a escravidão estava certa? Gagá. Velho completamente gagá. Só louco para aceitar os remédios dele. Não é que eu não gostasse dele. É que nunca suportei gente que aceitasse tudo passivamente. E naquele dia eu estava realmente irritado, desejando que alguém me ajudasse a odiar o pai por não ter dinheiro para uma bicicleta nova. Que vendesse Santa Clara, mas me desse uma bicicleta.
- Você não sabe de nada! – sentenciei displicente sem me preocupar em esconder a fúria e nojo que me invadiram. - Fica fazendo remédio pro povo e não ganha nada com isso. Se bobear, ainda passa fome e é mal falado.
- Sei mermo nada não, mininu Lúcio. – Confessou enquanto pousava aquele par de olhos gentis sobre mim. – Esse pouquinho que sei já tá bão, meu fiu. Sei que um dia ocê vai compreendê o véio. Isso vai. Agora apressa em levá pra Matilde este aqui. Faiz mais esta caridade. – Suplicou agitando um vidro na direção do meu olhar.
Peguei o potinho com raiva e segui de bicicleta em direção da casa de Dona Matilde, filha do Seu Argemiro. Foi quando voltava de lá que vi as crianças assustadas em volta da árvore em frente à casa grande. Meio que choravam sem saber ao certo que fazer. Larguei a bicicleta no chão e corri a perguntar pro Edu o que acontecera com Mariazinha.
- Lúcio, a tua irmã caiu de lá daquele galho e tá mal. Parece que não respira não. Acho que o pescoço dela… – E meu primo desabou em lágrimas quando viu o pai e a mãe se aproximando visivelmente desesperados.
Fiquei olhando pra Mariazinha sem acreditar no que Edu quisera dizer. Ela estava imóvel. O rosto meio que sem cor. O vestido branco dava-lhe a imagem de um dos anjos louros da igreja de Padre Damião. Fiquei perdido, sem saber se chorava ou gritava desesperado como meu pai que a sustinha ao colo enquanto um braço da garota pendia inerte para o lado.
De repente vi o velho Malaquias se aproximando devagar como se não fosse caso de ter qualquer pressa. Na verdade nem que quisesse ele poderia acelerar o passo. Aqueles segundos pareceram uma eternidade até que ele encarou pai de frente, implorando com os olhos que pai deixasse o velho ver a criança. Mãe quase bate em pai por demorar a se decidir, até que pai depositou minha irmãzinha de quatro anos no colo do velho Malaquias que, àquela hora, já estava sentado sobre a relva. Eu sequei a lágrima que me incomodava e sentei bem ao lado dele.
Vi quando o velho olhou pra Mariazinha como uma menina que olha para a boneca que acabou de ganhar. E o velho sussurrou baixinho, numa voz que só eu ouvi: “Ô, Pai bendito, io aqui to tão véio i a minina é tão novinha. Ocê sabe di tudo qui é bão pra nóis. Ocê é tão bão pro véio. Ajuda ieu dá esta alegria presse povu qui mi deu di morá, di cume e di vivê. Óia qui eles são tão bão cumigo, meu Pai!” As lágrimas corriam soltas pelo rosto esburacado do velho Malaquias pouco antes de Mariazinha chorar desesperada. Ele murmurou para eu entregá-la ao pai. Fiz isso.
- Vai aprecisá di alevá a minina nu doutô da cidade, Sinhô Zé Pereira, mais ela é forti e vai si sarvá sim. Vai sim. – Falou isso e foi caminhando devagar na direção do barraco enquanto meu pai corria a colocar Mariazinha no banco de trás do carro que, ato contínuo, saiu em disparada.
Pai e mãe voltaram depois das sete da noite. Mariazinha veio enfaixada no pescoço com um tipo duro de faixa. Mãe disse que o médico não entendia como ela sobrevivera a uma queda daquelas. O primo Edu disse que Malaquias era bruxo, mas bruxo do bem. Eu fiquei sem saber o que pensar.
Só no dia seguinte tive coragem de procurar o velho Malaquias. Estava como sempre fazendo suas misturas. Sorriu sem graça ao me ver. Perguntei como ele fizera aquilo. O velho inicialmente se fez de desentendido. Depois, ao ver que eu não desistiria, respondeu:
- Ocê tava lá, minino Lúcio. Viu io pedi ao Pai qui judasse Mariazinha. Foi isso.
- Todo mundo tava rezando, velho. Mãe estava até ajoelhada no chão. Mas não adiantou nada. – retruquei, indignado por ele querer me despistar.
- Cuntece que pra mim o Pai fez respondedor.
- E o que foi que ele respondeu?
O velho sorriu compreensivo e completou:
- Ele disse ansim: “Tá bão, fiu”.


Grande Mário, como sempre uma história de arrepiar. Nada como a simplicidade na resolução dos maiores problemas, não???
Demorei mas voltei também meu amigo]
Abraços
Meu querido,
Tão lindo que emociona, e faz com que as palavras se tornem desnecessárias…
Mas tudo é possível para quem acredita e crê em Deus!
Lindo, muito lindo…
Te amo, Cris
Nossa Mário…
foi de arrepiar mesmo essa história.
Acho que é certo então o modo como vejo a vida… rs…
A simplicidade está em tudo a nossa volta, nós mesmos é que complicamos a vida.
E muito obrigada pelas visitas e os comentários ao Vaisifu, fico muito feliz quando vejo seus comentários! Obrigada!
Ah, Mário!
Como me fizeste “viajar” neste conto … tsc, tsc,tsc…
Na minha infância, em Caruaru, conviví com vários “Malaquias”, verdadeiros “doutores raízes”, rezadeiras, benzedeiras e toda sorte de gente simples, mas de uma sabedoria einsteiniana, quando se tratava de curar, dar lições de vida, adivinhar a chegada das chuvas ou das prolongadas estiagens … Ai, ai!
Lindo conto, como tudo o que costumas publicar aqui.
Grande abraço, amigo!
Meu pai é quase um malaquias… quase pq ele ainda não é tão velhinho, é um cinquentão muito charmoso…rs… mas tbm vive no meio das ervas e fazendo remedio pra todo mundo… e ajuda mesmo muitas pessoas… eu às vezes não sei se é das ervas, ou se é dele mesmo que vem essa energia que cura… eu brinco e digo que ele poderia dar um copo de água pra pessoa beber que fazia o mesmo efeito…rs… mas ele nem liga… qdo eu preciso fazer alguma coisa importante eu peço pra ele me benzer, ele vai lá no quintal pega umas ervas e faz as rezas dele baixinho, passando as revas pelo meu corpo… Qdo eu tô com problemas, e peço pra ele rezar pra mim, ele acorda às 3 da manhã, e vai lá pro quintal, no meio das plantas e reza… Eu acho isso tão bonito… e é meu pai…
Aiai… me fez lembrar de não muito tempo atrás, quando eu pensava no porque de certas coisas acontecendo, que só o tempo me diria depois o real motivo… me fez lembrar do ultimo post meu, dos momentos de reflexão e tal… a vida é simples e a gente gosta de complicar. E mesmo na adversidade, basta muito pouco pra gente “se resolver”. Tudo é possivel, com fé… abraços!!
Impossível tecer um comentário que dê mais força a um texto como esse. Impressionante mesmo, palavras que parecem saber onde chegar e marcar…
Parabéns mesmo Mário, mais texto de primeira categoria…
pois é, Mario. somos todos como são tomé - temos que ver pra crer. mas como diz Shakespeare, há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe nossa vã filosofia.
Muito bom o seu conto!
Beijo
Sempre ótimas produções textuais! Quando é que você vai publicar um livro, hein?
Hã? Já publicou?
A propósito - tem um convite pra você: http://blog.cronicanet.com.br/5-livros-que-gosto-e-1-que-ficaria-apodrecendo-na-estante/
Abraço!
A falta de escolas no Brasil leva a isso.
pelo jeito andou numa sessão de pretos-velhos.
Emocionante eu diria,MARIO.
E o nosso país esta cheio de realidades destas.
Realidades sim.
Abração!!
Mário: um conto muito bonito! Quantas vezes desprezamos as pessoas humildes e quanta coisa boa aprendemos com elas! Obrigada pela visita! Abraços Tetê
Um texto impressionante e emocionante. Fora isto, tudo o que eu disser, estarei repetindo os demais.
Um abraço amigo que escreve o que eu gosto de ler.
conhecí uma pessoa assim lá na áfrica. o Seu Mario.ele fazia eses remédios sem cobrar nada.e curavam.adorei este conto.
bom final de semana!bjs
Mário, meu caro, ia fazer um comentário mais longo, mas, vou ficar no: “tá bão, fiu”.
Um grande abraço e tenha um ótimo final de semana.
Que conto, marcante, emocionante, Mário ..
A sutileza final é um aprendizado: devemos abrir nosso coração e ouvir sempre que Deus nos diz - “Tá bom, fio” !!
Abraço !!
Mario
Sempre bom ler o que escreve!!
beijos querido
Adorei esse conto. Minha mãe também fazia chás desses que curam dores e até para curar bronquite de criança. Um tio meu, que já faleceu, fazia curas como esse véio do seu conto.
Vim desejar-lhe um ótimo fim-de-semana e informar-lhe que já está postado no Caminho dos Contos o último capítulo do conto que vem acompanhando.
Beijos de Sol.
Minha avó era uma mulher sem cultura mas muito sábia e tinha sempre um remédinho pra tudo…
Desde a dor de cabeça até o calundum…lol
Ela fazia uso de ervas, flores e frutas para aliviar qualquer tipo de malefício que nos atingia…
O mais curioso era que só de olhar para a pessoa ela já sabia o que ela estava sentindo o que lhe dar para melhorar!
Não sei se era uma habilidade espiritual/paranormal ou se era apenas sensibilidade para encontrar a solução.
Adorei o conto, viu?!
beijinhos…fique com Deus e uma ótima semana!!
Uma linda história de amor, fé e aprendizado.
Uma grande lição!
Beijos
Mário, nem tudo na vida está entremeado de sofisticação e respostas. A prova está no conto sobre o Véio Malaquias.
Bem que eu gostaria de dar de cara com ele.
dis felizes
Nossa Mario, gostei muito da história, muito mesmo. Beijos e passa lá no Cafofo.
Obrigada pela visita, Mário!
Tem aí um Velho Malaquias que possa fazer um remedinho de ervas pra mim? Tô precisando…
Sempre maravilhoso teus contos!
Boa semana e bjim pra vocês!
sua história me lembrou a dona Inês, uma negra velha, forte, que trabalha em casa quando eu era pequena e que fazia uns remédios com sabão e cinza de cigarro para curar alergia, rsrsrs*
beijos e boa semana, querido
MM.
Belo conto!!! Essa foi demais!
…
Passe lá no meu blog e deixe seu comentário!!!
Mário, linda página. Li com emoção, confesso. As cenas descritas passaram nitidamente pela minha imaginação.
Meus parabéns.
Grande abraço.
Beleza, Mário; belo conto! Parabéns, amigo.
Grande história, MÁRIO!
Ainda que nos faça estrecer um pouco, tem a carga de nos dizer, não que seja fácil, mas a melhor forma de resolver os problemas: humildade e honestidade.
Adorei este pouquinho de história, tantas vezes realidade.
Parabéns.
David Santos
‘Veri gudi’, Mário, enternecedor. Se, como disse a Magui,
isso é resultado da falta de escolas no Brasil, bendita
falta de escolas, que proporcionou um desenvolvimento
espiritual desse naipe. Afinal, conversas com Deus, não
se aprendem nas escolas, não é? Abraço.
Boa tarde, Mario! Vim conhecer seu blog e convidá-lo a participar da blogagem coletiva COISAS DO BRASIL, em 16 de maio. A idéia é cada um escrever, em seu blog, sobre aquilo que represente a cidade brasileira onde mora ou nasceu, a fim de que, juntos, mostremos a riqueza cultural do nosso país. Estou convidando a todos, até mesmo os brasileiros que residem no exterior; o importante é mostrarmos que o Brasil é um misto de culturas e saberes. Conto com a sua adesão!
Mário:
Sempre vi que os que têm menos são os que ajudam aos que nada têm … Por que será?
Belo texto, emociona.
Um abraço
Taís